sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um café pra nós três (e as armadilhas do Tinder)


Por Mr. Fork - Lucas Guratti - 14 de novembro de 2013
mr. fork tinder
Será que dá para encontrar almas gêmeas no Tinder? Foto: Divulgação
Fila de uma cafeteria na região da Paulista, domingo de sol. Uma puta duma fila. Tem que estar muito desesperado por um café pra enfrentar uma dessas. Eu tava. Bem na minha frente, um casal jovem, ele mais ou menos da minha idade, ela com cara de mais nova do que ele. Os dois conversavam em voz alta. Bem mais alta do que eu gostaria e provavelmente muito mais alta do que eles imaginavam.
Foi inevitável ouvir o papo chato e insosso que saía desconfortavelmente da boca daqueles jovens incautos. Não que eu não tenha o costume de ouvir a conversa alheia — é algo que eu até faço bastante — mas juro que dessa vez eu preferia estar ouvindo toda a discografia do Jota Quest a estar ali, suando de calor e vergonha alheia.
O caso é que os dois obviamente não se conheciam. Nunca tinham se visto. Ao menos não pessoalmente.
Ele: Achei que você era mais baixa…
Ela: É que não dá pra saber pela foto do Tinder (risos).
Riam nervosos. Pareciam não saber se queriam ou não estar ali, porque sabiam tanto quanto eu no que aquilo poderia dar. E a fila nada de andar. Desandaram a falar sobre onde gostavam de ir. Ela mencionou as baladas da Augusta. Ele fez uma careta, ela não viu (ou fingiu que não viu). Mas eu vi. Emendou dizendo que também adorava, e prontamente se intitulou “alternativo”. Alternativo a quê, cacete?
Ela não perdeu tempo e perguntou o que ele gostava de escutar. Menina esperta, ela. “Jovem Pan”. Climão. Eu congelei. Vamos lá, campeão, você consegue sair dessa — ainda que ele não merecesse, eu torcia pro cara levantar da lona. “Mas eu sou eclético, né, meu, gosto de tudo”. Será que ela caiu nessa?. Se tem uma palavra que me dá um nó no estômago é essa, “eclético”. Devia ser considerada xingamento. Aparentemente, ela caiu. O papo andou um pouco. A fila também.
Resolvi começar a anotar highlights dessa conversa no bloco de notas do celular justamente pra escrever algo sobre isso aqui. O fato de os dois terem se conhecido no Tinder me interessou muito. Na época, eu ainda namorava e achava isso de conhecer gente por um aplicativo um negócio bizarro demais. Hoje eu penso diferente (o que um pé na bunda não faz, né?). Acho divertido e cheguei a usá-lo por um tempo, até perceber que não era pra mim — não tenho lá muita paciência nem com gente próxima, que dirá pra puxar papo e fingir que me interesso por uma estranha que eu só conheço por cinco fotos com a mesma pose e fazendo biquinho em fundos diferentes?
Nesse meio tempo, a fila parou de novo. Um gringo tentava fazer a moça do caixa entender que ele queria o cappuccino dele non-fat e eu voltei minha atenção pro casal. Ainda falavam de baladas. Uma específica. Ele dizia que achava o tal lugar “muito top”, que lá só ia “gente bonita, né, meu”, e que o banheiro tinha uns mictórios irados. Mictórios. Era disso que ele falava agora. Tava difícil torcer pelo cara. Ela tinha uma tatuagem meio escondida e ele reparou. Ponto pra ele, um rapaz observador (pelo menos). “É em homenagem à Beyoncé. Sou mega fã”, ela explicou. Eles se mereciam.
Finalmente, chegou a vez deles e, consequentemente, estava chegando a minha. O cara fez uma piada qualquer com a atendente da qual ninguém riu: nem a menina, nem a atendente, nem eu. Pediu só o próprio café, não perguntou se a moça que o acompanhava queria alguma coisa e coroou com a pergunta: aceita ticket, né? Sim, aceitavam. Ele comemorou com um soco no ar. Sério.
Embarquei de novo nos meus devaneios. Será que o problema era o Tinder? Esse negócio de sair com gente estranha não pode dar certo, mesmo. Se bem que eu conheço casos que até deram, dependendo do que cada um entende por “dar certo”. Vai ver o problema era com as pessoas. Todas as pessoas. Todo mundo tão carente, tão esquisito, tão chato…Mas isso também é um exagero, seria generalizar. Ou o problema era só com esse casal em especial. Ou o problema era comigo. Provavelmente era comigo. Comigo e com essa minha sociofobia natural, esse incômodo existencial com a vida alheia. Ou será que…
- MOÇO? MOÇO? QUAL O SEU PEDIDO?
Tá aí. Vai ver eu só precisava parar de beber tanto café.
*Lucas Guratti é redator publicitário e escreve pra aliviar a gastrite.
Postado por: Artur, 8º

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